
José de Alencar nasceu em Viçosa, Minas Gerais, em 6 de fevereiro de 1918, filho de Joventino Octávio de Alencar e Francisca Amélia de Alencar. Casou-se com Diva Mello de Alencar, com quem constituiu uma família de dez filhos. Companheira de toda a vida, Diva esteve ao seu lado em cada etapa de sua jornada, oferecendo o apoio familiar e pessoal que lhe permitiu dedicar-se com plenitude ao ensino, à pesquisa científica e ao serviço público. Faleceu em Belo Horizonte, em 11 de abril de 1994, deixando um legado de notável contribuição à educação, à ciência e ao desenvolvimento institucional e comunitário.
Realizou seus estudos secundários no Ginásio de Viçosa e graduou-se em Agronomia, em 1939, pela então Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Minas Gerais (ESAV), instituição que mais tarde se tornaria a Universidade Rural do Estado de Minas Gerais (UREMG) e, posteriormente, a Universidade Federal de Viçosa (UFV).
Em 1º de fevereiro de 1940, iniciou sua carreira docente como professor auxiliar da Cadeira de Fitopatologia da ESAV. Apenas dois anos depois, foi promovido a professor assistente e assumiu a responsabilidade pelo curso de Microbiologia, área à qual dedicaria toda a sua vida profissional.
Em 1947, por indicação da Congregação da Escola, seguiu para a Universidade da Flórida, em Gainesville, nos Estados Unidos. Sob a orientação dos professores F. B. Smith e G. D. Thornton, do Departamento de Solos do College of Agriculture, concluiu o curso de Master of Science in Agriculture, com pesquisa em Microbiologia do Solo. Seu excelente desempenho acadêmico lhe valeu o ingresso na Honor Society Phi Kappa Phi, distinção reservada a estudantes de elevado mérito.
Ao concluir seus estudos, recebeu uma bolsa do Instituto Internacional de Educação, que lhe permitiu visitar algumas das principais universidades norte-americanas, entre elas a Louisiana State University, a University of Missouri, a Michigan State College, a University of Wisconsin e a Cornell University. Essa experiência ampliou sua formação científica e consolidou sua visão sobre o papel da pesquisa e da pós-graduação no desenvolvimento das universidades brasileiras.
De volta ao Brasil, em 1949, passou a representar a Escola Superior de Agricultura junto ao Conselho Universitário da então UREMG. Participou intensamente do processo de organização da Universidade, desempenhando papel importante em sua consolidação durante os anos seguintes.
Em 6 de junho de 1958, conquistou, por concurso público de títulos e provas, a Cátedra de Microbiologia Geral e do Solo, recebendo também o grau de Doutor. Ao longo de sua carreira percorreu todos os níveis da docência universitária, participou de inúmeras bancas examinadoras, comissões acadêmicas e atividades de pesquisa, extensão e administração universitária.
Entre outubro de 1961 e outubro de 1963, exerceu a direção da Escola Superior de Agricultura. Sua gestão foi marcada por importantes avanços administrativos e acadêmicos, destacando-se, especialmente, sua atuação decisiva na implantação da pós-graduação na UREMG, iniciativa pioneira que contribuiu para transformar a instituição em referência nacional na formação de pesquisadores.
Em dezembro de 1964 aposentou-se, a pedido, do cargo de professor catedrático. Pouco tempo depois, retornou às atividades acadêmicas como professor contratado da Escola de Pós-Graduação da UREMG, onde também integrou o Conselho da instituição.
Sua liderança, entretanto, extrapolava os limites da universidade. Durante os cerca de trinta anos em que trabalhou em Viçosa, participou ativamente da vida comunitária.
Colaborou na implantação da primeira estação de tratamento de água do município, atuando no planejamento, na execução do projeto e na capacitação de pessoal. Foi provedor do Hospital São Sebastião, liderou a organização do primeiro banco de sangue da cidade, colaborou com a Cáritas na criação de programas de assistência às famílias desempregadas e coordenou o movimento comunitário que viabilizou a instalação da torre de retransmissão de televisão, ampliando o acesso da população aos meios de comunicação.
Em 1969 transferiu-se para Belo Horizonte, onde inicialmente atuou como assessor da Secretaria de Estado da Agricultura, colaborando em projetos voltados para a modernização da agropecuária mineira, entre eles o programa das Fazendas Modelo.
Sua reconhecida competência levou a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) a convidá-lo para organizar e implantar o Programa de Pós-Graduação em Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas. Durante aproximadamente uma década, exerceu as funções de coordenador da pós-graduação e chefe do Departamento de Microbiologia, contribuindo decisivamente para a consolidação da pesquisa na área.
Nesse período também desenvolveu atividades junto à Fundação João Pinheiro e ao Centro Tecnológico de Minas Gerais (CETEC). Sua capacidade de articulação institucional permitiu a criação do Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia de Alimentos, iniciativa pioneira que reuniu pesquisadores da UFMG, da UFV, do CETEC e da Fundação Ezequiel Dias, em um esforço conjunto para fortalecer a pesquisa científica em Minas Gerais.
Ao longo de sua vida acadêmica orientou numerosos estudantes de graduação e de pós-graduação, acompanhando com satisfação o desenvolvimento profissional de seus ex-alunos, muitos dos quais vieram a ocupar posições de destaque em universidades e instituições de pesquisa.
Em 1979 iniciou uma nova etapa de sua carreira ao ingressar na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), no Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Leite, em Coronel Pacheco. Dedicou-se inicialmente às pesquisas em Microbiologia do Solo e, posteriormente, participou do programa de pesquisas em energia alternativa. Implantou um sistema de produção de biogás baseado no modelo indiano e desenvolveu aplicações para o resfriamento de leite em pequenas propriedades rurais, buscando soluções tecnológicas adaptadas à realidade do produtor brasileiro.
Ainda na Embrapa, foi um dos principais articuladores da cooperação científica com a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). A parceria permitiu o desenvolvimento de pesquisas em criopreservação e transferência de embriões, além de estimular o intercâmbio entre pesquisadores das duas instituições. Presidiu a comissão paritária responsável pela consolidação dessa cooperação, que resultou, entre outras conquistas, na cessão da área onde seria construída a atual sede da Embrapa Gado de Leite e na criação do Programa de Mestrado em Zootecnia da UFJF.
Em reconhecimento por sua contribuição, recebeu homenagem póstuma, ao ter seu nome atribuído ao Laboratório de Qualidade do Leite da Embrapa Gado de Leite.
Mesmo após a aposentadoria compulsória, manteve estreitos vínculos de amizade e respeito com colegas, alunos e pesquisadores. Participou ativamente de diversas sociedades científicas, entre elas a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, a Sociedade Brasileira de Microbiologia, a Sociedade Mineira de Engenheiros Agrônomos e a Associação de Ex-Alunos da UREMG.
A trajetória de José de Alencar evidencia a atuação de um educador, cientista e administrador universitário comprometido com a excelência acadêmica, a inovação científica e o desenvolvimento institucional. Nas diferentes etapas de sua carreira — na UFV, na UFMG e na Embrapa Gado de Leite — deixou contribuições permanentes para a consolidação da pesquisa, da pós-graduação e da ciência agropecuária brasileira, além de um exemplo de dedicação ao serviço público e ao desenvolvimento da sociedade.
Célia Alencar de Moraes, Julho/2026